O valor do afeto
Acabo de descobrir que um grande número de pessoas sente e compreende a energia do dinheiro como afeto.
O sentimento é: se me leva para jantar, se me leva para viajar, se me dá presentes, se me telefona do Japão etc. Daí a pessoa pode pensar: “Esse parceiro/a, amigo/a, está dividindo comigo o que tem e às vezes o que não tem, porque gosta muito de mim, porque sou importante”.
O mesmo acontece em vários níveis de relacionamento. Como o do funcionário com o patrão, do garçom com o cliente, enfim, qualquer um que faça um serviço e que possa receber uma “gratificação” pelo serviço prestado.
Outro exemplo é o do servidor que se dedica esperando receber o reconhecimento de um serviço bem feito (que a princípio é obrigação). Existe aqui uma dose “X” de afeto implícito - pois entendemos que se goste do que se faça e que é submetido a quantificação pelo como está sendo servido.
O que passa a ser subtendido é: “ele/a gosta de mim”, de como sou dedicado, mas pelo tamanho da gorjeta. O pensamento sem que se perceba passa para o âmbito pessoal - gosta de mim -, e não do serviço, ou do profissionalismo puramente, como deveria ser.
Com os profissionais da área da saúde essa confusão também acontece. No caso de terapeutas, alguns pacientes ficam perturbados e confusos numa fase da terapia, pois como existe um laço afetivo que permeia a relação, ele se sente desconfortável pelo fato de que para conversar com o “ amigo terapeuta ele deverá pagar”. Na realidade esse “amigo terapeuta” conversa de uma outra posição, é uma conversa profissional, com conteúdo profissional, ele não está jogando conversa fora, falando abobrinhas - como se diz popularmente - ou dando conselhos. O terapeuta amplia a visão do paciente fazendo-o perceber e chegar a conclusões. Diferente dos amigos que trazem “soluções”.
No caso do médico clínico, o preço é dado pela disponibilização e responsabilidade. Ora, quando um paciente liga para seu terapeuta espera por um atendimento a qualquer hora e o médico deverá ser atencioso, não necessariamente carinhoso, pois isso não é pessoal, faz parte da profissão dele independente do valor da consulta. Assim como ocorre com o cirurgião que cobra pela grande responsabilidade que assume quando aceita fazer uma cirurgia - uma vez que toda cirurgia implica em certo tipo de risco de vida.
Na amizade existe um momento que esta confusão surge, como nas datas importantes como dia do aniversário, do casamento... “Quanto meu amigo/a gosta de mim?” para muitas pessoas este QUANTO, está representando pelo valor, pelo preço do presente que o outro dá - se é um objeto caro ou barato. E assim por diante a confusão continua.
O que é curioso, é que a pessoa que entra nessa confusão não está podendo ver ou não quer saber, como o outro entende o profissionalismo e o afeto, a atenção e o respeito, ou qual a escala de valores que o outro tem dentro de si.
Há pessoas que tem como valor o fato de gerar emprego. Para esta pessoa, ele já esta fazendo a sua parte reconhecendo o valor profissional do outro, e não tem nada mais a dar ou fazer. O principal que é o emprego, está sendo dado.
Para outros, o amor e carinho dos outros em relação a ele se expressam através da atenção, dos elogios, da disponibilidade de tempo, na aceitação das idéias, e não no “pagar o jantar” ou dar presentes caros.
Em todas as relações, é necessário e importante poder se abrir para os valores e conceitos do outro. Esta atitude vai facilitar o entendimento e o recebimento.